é assim

O gerúndio

Há quem, repetidas vezes, não se canse de me fazer chegar, audivelmente, a sua estranheza e perplexidade pelos meus repetidos silêncios aqui neste jornal, porque, dizem, não é lá muito próprio dum colunista ou cronista, que se preze e “a sério”, primar mais – muito mais! – pela ausência de escrita do que pela presença do que articula, como parece acontecer comigo.
Pensando bem, devo, seriamente, confessar que assim não é, nem assim pode ser, de facto.
É certo que, na constância do jornal, tenho sido, aparentemente, uma sua inconstância, em especial no que tange à regularidade aritmética semanal.
Serei, desse ponto de vista, um não exemplo a não seguir, e muito agradeço, de forma penitente, à tolerância do jornal, que ainda me permite aqui voltar sempre que, do alto da minha Liberdade e Vontade, entendo voltar.
Não me interessa, em nada, que possa ser um exemplo.
Move-me, única e simplesmente, a singela e simples possibilidade que cada Um – e basta que haja um único! – possa, se e quando quiser, reflectir sobre o que se escreve e possa constatar que, porventura, o mesmo faz-lhe intrinsecamente sentido e que apela ao que lhe É. Não porque seja eu a dizer ou a escrever, mas porque, e tão somente, o seu estado de consciência demanda e determina essa circunstância actualizadora e renovadora.Isto para dizer que a inconstância da minha presença é a constância da minha própria integração enquanto Ser. 
E assim é porque, como se sabe, todo o caminho se faz caminhando, toda a dificuldade se ultrapassa, ultrapassando, todo o ar se respira, respirando, tudo se faz, afinal, fazendo.
Ora, desse ponto de vista nenhuma ausência existe, pois que estas crónicas e as suas temáticas, quiçá política, social e ontologicamente incorrectas e vãs de utilidade, pretendem ser uma expressão, subjectiva, da essencialidade e nuclearidade do que É.
E que está ao alcance de Quem possa ter vontade de simplesmente querer.
E, também por isso, jamais poderei escrever sobre o que, em consciência, não possa ter, pelo menos, tentado ter para mim próprio por consubstanciado e integrado. Não é uma questão de exemplo para ninguém (como diz o ditado, “presunção e água benta cada um toma a que quiser”). 
É, bem mais prosaicamente, a premência inalienável de ser, sim, um exemplo para mim mesmo.
Pois que só eu posso conjugar o meu gerúndio, com a feliz impossibilidade de o poder alienar a favor de ninguém.

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