De náufragos e ilhas, elos e falácias


"Depois de ler a Falácia de Robinson Crusoé, que recomendo, parto de um conceito que me é muito caro, a saber, o de autonomia. Poderia trazer comigo Freud, Marx e Nietzsche - os reconhecidos Mestres da Suspeita. Mas simplifiquemos: ao contrário do que o pensamento mitológico diria, o sol, a lua e o universo, na realidade não estão relacionados nem são afectados directamente pela maneira como eu me comporto. E, portanto, cada ser humano (eu, incluída) está isolado no mundo, neste sentido da não afectação do que o circunda.Todavia, estamos neste planeta, animais entre animais. Quando uso a metáfora do Robinson Crusoé para distinguir ética de moral (com a chegada do Sexta-feira), entendo que ninguém vive sem verso e reverso.
Não é possível entender uma vida humana isolada, num ecosistema completo onde se viva e se mova, onde se seja. Viver e estar com os outros, representa ser influenciado por eles e, reciprocamente, influenciar. A ilusão da autonomia pessoal não é a da falácia de Robinson Crusoé, náufrago sobrevivente sozinho numa ilha - pois que na esfera pública e nas esferas privada e íntima, o que cada um faz tem repercurssões nos outros.
Uma espécie de interconectividade recíproca (será que pode dizer-se assim?).
E o facto de estarmos ligados aos outros, pode constituir uma ameaça à autonomia (aqui, sigo Kant) e deixar prevalecer a heteronomia (quando o que rege a minha conduta vem de fora, de outros). Ora daqui vai um saltinho ao risco ou tentação de colocar os afectos adiante das razões e dos argumentos. E a «regressar» à falácia afectiva. Ou não?!

Convoco, de bom tom e passadeira vermelha, uma das companhias destas conversas de falácias, desde o seu início…"

Conversamos?!... Falácias. Sempre! [e... isto é leitura obrigatória para os meus queridos discentes....]

Comentários

Mas... não pode a razão integrar os afectos na sua lei?...

Não creio que Kant negue os afectos e sentimentos, apenas considera que o imperativo categórico está acima deles nas escolhas éticas.

E será que razão e sentimento não podem mesmo harmonizar-se?... :) Quero eu dizer: os sentimentos têm mesmo que pôr em causa a Lei Moral?
Su disse…
o facto de estar "ligados uns aos outros" significa q a "autonomina" é relativa...

a velha questão entre a primazia da razão e do sentir.........qual delas?

eu opto pelos afectos.............

jocas maradas
directriz disse…
e eles - os sentimentos e os afectos - não serão também simples falácias? um ser sem dever ser?

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